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2 de jul. de 2020

Rapa de angu

Você já fez angu? Talvez o angu seja uma das coisas mais fáceis de fazer. Pensava eu. No entanto, existem muitas técnicas para ele ser preparado. E em diversos lugares do país ele se modifica e ganha outros formatos outros nome.
O angu é um produto alimentar que serve tanto para matar a fome, como para acompanhar, comida de gente e de bicho. Angu dá sustância. Como se faz um angu? Vamos a receita das mais simples.
Coloque em uma panela 500 ml de água fria, duas colheres de sopa, bem cheias de fubá, ou farinha de milho fina. Mexa até fica homogêneo. Depois leve ao fogo e vá mexendo até começar a borbulhar, tampe e espere cozinhar.
Algumas pessoas fazem a massa despejam em uma superfície e depois cortam e levam a fritura. Outras transformam o angu em polenta, com óleo e temperos diversos.
Agora não importa onde, em que lugar. Quem já fez angu sabe, o angu só tá cozido quando começa a dar aquela rapa. Que seria a crosta endurecida no fundo da panela. Há quem diga que parar de mexer o angu e deixar fazer rapa é técnica fula. Angu falho.
Mas se tem uma coisa no angu que eu gosto é da rapa. Quando eu era criança achava incrível que minha mãe fazia o angu e deixava cozinhando, depois de um tempo ela despejava o angu em um prato. E retirava a rapa inteira. Em formato de panela. A rapa amarela, podia ser salgada com um pouco de óleo, ou podia ser acrescida de açúcar e leite. As vezes colocávamos até ela triturada sobre a comida para dar crocância.
Eu tentei algumas vezes fazer angu e descobri que eu não sabia fazer a rapa. Diversas vezes reclamava comigo mesmo. Ele está cozido onde está a rapa? Um dia vendo minha mãe fazer angu, prestei atenção a cada detalhe. Cada movimento que fazia. E o angu era preparado igual. Não havia diferença. Eu fiquei confusa. E peguntei: Mãe como que faz a rapa do angu? Ela respondeu: Oras, é só deixar cozinhando sem mexer depois de borbulhar.
Exatamente como eu fazia. Inclusive já queimei angu neste propósito. Aliás o angu já me queimou. Tempos depois estava eu fazendo angu em casa. E minha mãe estava lá. E eu disse, pena que não sei fazer rapa. Ela se levantou me olhou. E disse: Com esta panela? Esta panela nunca vai fazer rapa. Ela é antiaderente.
O clique veio tão instantâneo, eu me senti tão boba. Durante anos eu tentei fazer a rapa do angu. E nunca consegui. E não era eu, não era o fubá, tão pouco o tempo de cozimento. Era a panela. Ri comigo mesma. As vezes a vida se cozinha no lugar errado. Tal como o angu.


2 de mai. de 2020

O bolo


Há muito tempo não escrevo aqui, me cobrei diversas vezes por dois anos a respeito disto, e hoje não me importa muito quantos textos eu escrevo, pois aprendi a me expressar com palavras ditas. Para amigos, para inimigos. Aprendi a falar. Compartilhar sentimentos, emoções. Que foi o principal motivo de ter feito este blog.

E hoje fazendo um bolo, percebi que aprendi muito mais que só compartilhar sentimentos. Aprendi que quando fazemos isto, meio que deixamos o outro a par da situação, do que estamos sentindo. Pode parecer óbvio, mas nem sempre é. O outro não sabe o que se passa, da mesma forma que sabemos.

Eu sei que este parece um desabafo, uma conversa meio louca, e você deve estar a pensar o que o bolo tem haver com isto? Bem, vou tentar permitir que você sinta agora o que eu estou sentindo.

Quando eu era mais nova, meu pai trabalhava fora e minha mãe ficava em casa, você já deve ter lido isto em algum outra história que contei aqui. Mas esta é uma história diferente, eu prometo. Minha mãe adora cozinhar, e isto muitas vezes impediu que ela nos permitisse fazer. Até porque quando errávamos meu pai reclamava muito, sempre jogando nas costas dela a culpa.

Cresci amando comer, e tendo uma preguiça incrível de cozinhar. Me aventurei algumas vezes, aprendi receitas de sobremesas, pudins e pipocas doces quando minha mãe viajava. Quando fui morar fora, a cozinha se tornou uma obrigação, e tudo que é obrigação parece ter um tanto de desgosto.

Lembro um ano que só tinha batata e arroz, cozinhei por um ano inteiro, aprendi a fazer batatas de tão diversas formas. Eu que sempre achei que a diversidade era o que permitia o aprendizado. Me peguei aprendendo a gostar de cozinhar, quando só a batata e o arroz se faziam presentes.

Quando vim morar em Salinas (a propósito eu me mudei fazem quase 3 anos, desculpe não ter lhe contado) eu conheci novos ingredientes, novas culturas e novas maneiras de se fazer a mesma coisa. Como o frango com quiabo, feito em panelas separadas. Ou ainda, o pequi, que antes era uma relação de ódio, hoje faço estoques para durar o ano todo.

Me peguei cozinhando e cantando, cozinhando e dançando, cozinhando para amigos. Lembrando de tê-lo feito também em Rio Grande. E são lembranças memoráveis. Vejam só: EU GOSTO DE COZINHAR. Me dá uma satisfação, o prazer, o retorno ao acerto e até mesmo ao erro, quando algo sai sem sal, ou salgado demais.

O retorno me conecta aos outros, e eu vou me aprimorando, lendo receitas, testando novidades. Fazendo refeições que antes eu nem imaginaria cozinhar. Me pego amando a cozinha, os utensílios, os eletrodomésticos que a compõe. A cozinha é meu palco, e apesar de querer ser o maestro, eu ainda sou o espectador, vendo as panelas sendo regidas a todo vapor pelo fogo.

E o bolo? Você me pergunta. Desde que entramos em isolamento social devido ao COVID-19, tenho tentando fazer bolos. E acreditem, nem com receita da minha mãe dão certos. Outro dia fiz um bolo de cenoura, parecia lindo no forno, tirei coloquei na bancada para esfriar, quando retornei, estava horrível, e o sabor não muito agradável. Depois tentei fazer um bolo comum, trigo, ovos, leite, manteiga, mexe. Nossa, este ficou lindo até depois de frio. Vamos provar: Esqueci o açúcar.

Preparando outra receita, resolvi fazer um bolo de mandioca, fiquei tão preocupada em não esquecer nenhum ingrediente, coloquei o bolo no forno, deitei e dormir. Quando acordei, não havia bolo, eu tinha sonhado.

Hoje, fiz um bolo, segui uma receita, destas de internet, coisa que não fazia há muito tempo, e agora estou aqui escrevendo, esperando o bolo assar. O bolo é de fubá, e olha que engraçado, leva trigo, então também é de trigo, de óleo, de sal, de açúcar, de ovos, de calor e de fermento. A o fermento. Nunca o esqueça. Não há ingrediente mais precioso.

E foi fazendo este bolo que quis escrever este texto, neste período de isolamento, não precisamos acertar tudo, fazer tudo dá certo. Tudo bem se não der, inclusive eu sorrir algumas vezes com meus bolos errados, talvez bem mais que sorriria com os certos.

Ninguém faz bolo para comer sozinho, nós colocamos o fermento para crescer, mas também para dividir. Tudo bem estar tudo errado agora. Mas sempre conte com alguém, use as redes sociais, aproveite seus amigos, seus familiares. Uma hora isto vai passar, e poderemos comer bolos, certos ou errados. Ainda vamos nos rever e nos divertir comendo e sorrindo de nossos bolos.

Não se cobre tanto, fazer nada também é fazer algo por si. Mas se precisar muito fazer alguma coisa, faça um bolo.