Ele carregava um canivete,
E como quem fere um animal,
Feriu o coração de outrem.
Ela carregava uma rosa,
E como quem fere um dedo,
Feriu o coração de outrem.
Eles um dia se encontraram,
E como quem conversa,
Feriram suas imagens.
Foi na cama que os selvagens,
Descobriram ter ferido o ego.
Pobre ego coitado,
Voltou inconformado,
Pois não ferira ninguém.
...
O sol pediu passagem a outrem,
Que se despediu de uma pedra,
Pois havia tropeçado n’ela.
Outrem andando se viu no espelho,
E vendo uma pedra, se apaixonou,
Por ela.
Ela com desgosto do beijo do moço,
Apaixonou-se por ele.
E ainda um tanto selvagem,
Lembrou-se... E depois morreu.
Agora que ele vive só,
Continua sem dó,
A usar seu canivete.
Outrem não tendo a quem amar,
Amou sua própria imagem,
Satisfazendo o ego,
Que não amava ninguém,
E não sabia outra coisa,
a não ser ferir-se.