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10 de abr. de 2012

A marcha dos corvos



No alvorecer do dia, ele percebia a grande musica da vida, tudo feito em total conforto, o sol nascia esplendoroso bem a sua frente, de uma arvore ao seu lado passarinhos gritavam a pedido de comida, seus pais saíam desesperado para cumprir as ordens da mãe natureza. A água verde do lago a sua frente, se misturava ao vento, e parecia dançar lentamente, uma canção de se fazer acordar.  Lá no alto a serra onde no outro dia ele havia visto o sol repousar estava intacta, como se nada tivesse vida por lá. Não se avistava nada. A não ser a grama que possuía um cor indefinida. Não se era verde, não se era amarela, se estava em contraste de vida e morte. Foi quando ele se lembrou do propósito de estar ali assim no meio da natureza. 
Se levantou, espreguiçou os grandes braços. Artur era um homem alto, corpulento, estava vestido de seu calção da sorte, olhou novamente o espaço ao seu redor. Logo a frente um casal de pacas davam ao cenário o egoísmo do mundo. A única coisa que para Artur era a forma de demonstrarmos que não nos preocupávamos com o próximo. Que mesmo sabendo que em outro lugar tudo se padecia, pouco importava para ele, para aquelas pacas, ou para muitos outros. Era importante viver a vida. Era importante estar em harmonia com o cosmo. Logo sorriu. Tudo bobagem. Aqueles animais só completavam ao que vieram, povoar a terra. E sem o sexo como fariam isto? Seria estranhamente impossível? na realidade nada importava mesmo para Artur, que tinha passado trinta anos de sua vida, cumprindo seu papel na sociedade. Era um homem trabalhador, honesto, bom pai, bom marido, descente. Até a medíocre da sogra ele suportou todo este tempo. Nenhum de seus sonhos haviam sido realizados naquele tempo. Apesar de todo o dinheiro que possuía. Apesar de todo o trabalho prestado. Nem ao menos uma viagem Fernando de Noronha, um sonho tão perto, ele tinha feito.
Artur se descobriu novamente em seu dever, era domingo, e ele sabia que no outro dia recomeçaria no compasso de tudo. A grande duvida era se ele faria tudo do jeito dele, ou se iria voltar a mesquinharia de antes. 
Aquele homem de cinqüenta anos, pai de três filhos, esposo de uma mulher linda, e que lhe tinha dado trinta anos de amor, compreensão e muita... Seus pensamentos pararam por ai. Que amor? Que compreensão? Na realidade tudo havia sido um maldito engano. 
Ele se lembrou da garota com quem namorava, que havia chegado e chorado nos seus ombros, implorando que ele se casa-se com ela, pois estava grávida dele. Ele não vendo outra alternativa se foi a casa dela no mesmo dia para falar com o pai. Que lhe humilhou de todas as formas possíveis. Se lembrou do nascimento de cada filho. Carlos, Ana Lucia e Renato. Talvez as únicas coisas de valor que ele possuía em sua vida. Até quando sua esposa em um ataque de fúria, e vai saber por quê. Ela era assim mesmo, sempre foi. Olhando nos olhos dele contou que seu filho primogênito não era seu filho. Como assim? Carlos? O Carlos? Ele não quis saber mais que isto, virou as costas, pegou o carro, e dirigiu até aquele lindo lago. Estava ali a noite toda. Pensando e pensando. 
Percebeu que tinha doado uma vida inteira para alguém, e não tinha recebido nada em troca, apenas uma grande mentira. Percebeu que trinta anos da sua vida, haviam sido jogados na lixeira do mundo. Na grande e maldita lixeira da vida. Gritou. Diversos pássaros voaram pelo céu azul. Não era possível ele ser tão imbecil assim. Não tinha cabimento. Tirou a carteira do bolso, lançou sobre a água. Agora que não possuía documentos podia ser qualquer pessoa. Quem sabe ele não seria Diogo ou Antonio. Seus amigos de colégio. Não, ele queria ser outro Artur, quem sabe um com alma de poeta, um grande bardo? Que pudesse se lançar no mundo as leis mais loucas? Que fizesse a sua vida, do seu jeito. Ele então sorriu, ele enfim podia se livrar da maldita vida que levava. Podia ser qualquer alguém por ai. Sem ter que dar satisfações, iria aos bares durante a noite, e só voltaria pela manhã, dormiria o dia todo, e nada mais seria regra. Viveria intensamente cada minuto. Iria a academia, já era hora de perder aquela barriga enorme.  Veria todos os jogos do Atlético Mineiro, mesmo que fosse para se decepcionar depois. Não teria problema, pois seria a sua vida. A vida de Artur. 
Retirou do bolso o celular. Tinha uma mensagem marcada na tela, abriu era da sua esposa, leu:
" Artur querido, sei que te decepcionei, mas volte para casa, estamos preocupados, e amanha é um longo dia, lembra-se? É o dia que será escolhido vice diretor da empresa." Artur sacudiu a mão na bermuda, e foi para casa. Afinal viver aquela nova vida lhe custaria muito mais. Seria muito trabalhoso, e ele já era velho. Olhou para o casal que deitados sobre a grama pareciam comemorar o enlace que tiveram. E se despediu de tudo aquilo. Respirou fundo, caminhou ate o carro, sorrindo. 
- Como é bobo Artur. Como você é bobo. Seguiu em direção a sua vida. E o que mais poderia desejar ele? Nada. Afinal tudo era uma grande marcha de corvos. E ele não queria ser sua comida.