Fiquei parada sorrindo enquanto via minha cachorra correndo
pela rua, eu esperava o ônibus, ela? Nunca ser presa. Apanharam-na e a
colocaram para dentro de casa. Eu consegui ouvir um choro. Mais de pirraça do
que de dor. Ou talvez doesse mesmo. Talvez ficar presa doesse muito nela. Não
sei. Eu achava que o quintal era grande para recebê-la. Mas para ela podia não
ser.
Observei o ônibus
virando a esquina e aproximando. Uma pessoa me cumprimentou, eu respondi com
meio sorriso. Lembrei que tinha algumas moedas que poderia usar para pagar a
passagem. Retirei as de uma latinha que guardava na bolsa, e comecei a contar. Não
me sai muito bem. Eu as contava muitíssimas vezes. E somente precisava de dois
reais. Subi o ônibus, sem saber se tinha contado certo. Dei um bom dia mudo.
Entreguei as moedas para a cobradora. E sentei na última cadeira a direita.
Olhei para
o lado e fiquei triste pela minha cachorra. Liberdade é uma coisa muito
importante para nós humanos, seria importante também para ela? Retirei o
celular da bolsa, pensei em pesquisar no google "cachorros gostam de
liberdade?", lembrei que não tinha acesso a internet. Joguei um pouco. Coloquei
uma música para tocar. Lembrei de um livro que estava na minha bolsa
"Felicidade Clandestina", terminei de ler um conto e iniciei outro.
A história
era boa, falava de uma menina, depois veio a história de uma velha. Uma senhora
que perdera sua família e agora vivia a custas dos outros. Dormia em uma cama
pequena, porque era magra e pequena. Tinha a pele escura, apesar de ser clara. Vestido
manchado pelo tempo e pelo uso. Uma senhora rejeitada, que sentia saudades da
família que perdera, que sentia saudades das lembranças que perdera, que sentia
saudades.
A história
criou em mim, uma tristeza tão profunda, que mesmo querendo saber o fim dela,
eu não queria um fim. Era uma senhora. Triste. Sozinha. Que morava de favor. E
as pessoas já cansadas dela, as enviaram para outro lugar. Onde também havia
sido rejeitada. As paisagens que se seguiam, eram de casas, ruas e pessoas. Eu
com o livro, tentava desviar meus olhares a elas. Um tempo depois tudo mudava,
quando eu cheguei a olhar para fora do ônibus, já estava na estrada que me
levava a meu destino. E pairando uma melancolia, no meu fone tocava "Love
on the Brain", parecia cena de filme.
Eu lendo
aquela mulher, que escrevia sobre uma mulher, que morreu, que morria. E eu? Foi
morrendo a alegria, foi morrendo o dia. E sem saber de onde, nasceu uma
tristeza tão grande "pobre cachorra, sem liberdade", "pobre
Clarice", "pobre senhora", eu pensava. Pobre eu. Mas o que tem
eu? Estou triste.
Quando
cheguei ao meu destino, fiquei aguardando minha vez de descer. Pessoas iam e
vinham, sem direção aparente. Cotidianamente. Eu me levantei e desci. No
caminho tocava outra música. Mas eu não a ouvia muito bem. A cena da senhora na
árvore, a voz de Rihanna, aquela melancolia. Eu não me sentia bem. Entrei na
minha sala. E chorei.
Mas quase
que naquele instante tive que parar. A porta se mexia. Era o dia começando. Não
podia ser triste. Era um dia de trabalho. Um dia de fazer acontecer. A tristeza
guarda-se para outro dia. Para outro personagem. Na esperança de sorrir sempre.