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20 de out. de 2021

Um prato de sopa derrubado na cama

 Tudo terminou com um prato de sopa derrubado na cama. Pode parecer pouca coisa. Mas naquela época, um prato de sopa era muita coisa. Lembra-se que naquele dia levantamos bem cedo? Antes até do que o horário habitual? Eram quatro horas? Pode ser. Estava escuro. Havia névoa. Na janela gotas desciam, mas não chovia há muito tempo. Coisa estranha para aquele lugar. Um mês talvez? Provavelmente. 

Lembro de ficar te olhando alguns minutos, pensei que tu não acordaria cedo. Pensei que eu demoraria para conseguir te colocar de pé. O ônibus sairia às seis horas. Havia tempo. Levantei um pouco o corpo, já arrependida tornei a deitar. Fazia frio. Oito graus. Morávamos em um cômodo. Naquele cômodo nossa vida. Os móveis não eram nossos. Era alugado. Havia silêncio. Seu peito mal se movia. Sua respiração era lenta. Sua boca um tanto aberta, soltava pouco ar. Eu me aproximei, te cheirei. Cheiro bom. Criei coragem e me levantei. Fui ao banheiro. Acendi a luz. Urinei. Escovei os dentes. 

Quando voltei para o quarto, você estava de olhos abertos. Sorriu para mim. Está frio hoje. Que horas são? Volta para cama. Eu falei que era cedo. E disse para você voltar a dormir. Você se levantou, foi ao banheiro. Voltou para o quarto. Eu preparei um café. Tomamos. Passamos a manhã conversando. Você se lembrou que tínhamos macarrão. Eu disse que queria comer sopa. Você se lembrou que não tínhamos massa de tomate. Nem tomate. Tão pouco cebola. Menos ainda cenoura. Eu disse, que tínhamos corante. Resolvemos jantaríamos sopa. 

O horário chegou e saímos para a aula, passamos a manhã estudando. Te encontrei fomos almoçar no RU. Você sorriu pois tinha frango. Uma coxa e sobrecoxa enorme de frango. Nós duas fomos vorazes aquele pedaço enorme de carne. A decepção foi sua inicialmente. Na primeira mordida você percebeu. Está cru. O meu também estava. Eu ri. Belisquei as pontas. Pensei: Hoje tem sopa. 

Fomos para o estágio. Tomamos café e biscoitos e a Enilda trouxe. Saímos do estágio e voltamos para a aula da noite. Saímos da FURG já eram vinte duas horas. Dormimos no caminho inteiro para casa. Estávamos cansadas e com fome. O ônibus estava lotado, todas as janelas fechadas. Cheiro de cigarro, mofo e suor. Como alguém suava naquele frio? Suava. Nós suávamos. Chegamos na última parada de ônibus e descemos. Estava muito frio. Eu falei alguns palavrões e você disse: Tem sopa. Eu sorri. Esfreguei as mãos e aproximei da boca. Tentei esquentá-las enquanto caminhava. 

Quando chegamos em casa, você picou as batatas enquanto eu banhava. Já era quase meia noite. Eu sai do banho e preparei a sopa. Enquanto você banhava. A sopa ficou pronta e eu te chamei, você não queria sair do banho. Estava quente. Eu insisti e você saiu. A fumaça do banheiro impregnou o quarto/sala/cozinha. Você sorriu. Pegou o seu prato de sopa, sentou. Eu peguei um frasco de pimenta. O prato novo que havíamos comprado, enchi de sopa. Sentei a cama. 

Em uma fração de segundo, meu colo estava cheio de macarrão. A cama cheia de batatas. Eu não havia entendido direito o que ocorreu. Você me olhou assustada. Já estava terminando a sua sopa. Eu comecei a chorar. Você achou que eu havia me queimado e veio correndo. Minha calça estava cheia de sopa, a cama, estava cheia de sopa. Eu entendi, naquela hora havia derrubado o prato de sopa na cama. Mas como? O prato. Onde está o prato. Eu perguntei. Quebrou. Eu chorei copiosamente, tentando te convencer que não havia me queimado. Você chorou me vendo chorar. Me entregou o resto de sopa que estava no seu prato. Prometeu me fazer mais sopa. Porém não havia nada para mais sopa. 

A pior noite daqueles quatro anos, com certeza foi esta. Não pelo prato quebrado, pela calça, cama suja. Não por termos chorado. Mas porque eu ainda gostaria de comer meu prato de sopa. Eu ainda penso naquele prato de sopa. Aquele foi o prato de comida que eu mais gostei na vida até hoje. Talvez seja porque não comi. Talvez seja porque não se deve chorar o prato de sopa derramado. Talvez seja, porque trocamos nossos dez reais naqueles dois pratos. Os únicos dez reais que tínhamos. Um quebrou naquela noite. O outro um mês depois.