- E ai como foi a sua noite?
- Péssima. Tive uma
enxaqueca terrível.
- E nem me fale. E seus
meninos?
- Estão bem. Já sabe quem
atenderei hoje?
- Pediram para continuar com
Fernando.
- Sério? Mas não é um
atendimento semanal?
- Sim, mas acharam que era
melhor. Para mim podiam dar aquele cara como louco. O psiquiatra disse que ele
tem transtorno de personalidade.
- Qual deles?
- O doutor Carlos. Eu fiquei
com o assassino da mangueira.
- Eu o atendi uma vez. Ele é
bem frio.
- Hoje é o ultimo
atendimento. Amanhã ele será transferido para São Paulo. E Fernando?
- Não sei.
- Como assim?
- Não sei o que dizer. Sabe,
as vezes ele me parece muito frio, outrora um cara comum, por quem qualquer
mocinha se apaixonaria.
- Eu até entendo estas
garotas que o seguiram. Mas e os rapazes?
- Fernando é inteligente.
Ainda não estou certa de que diagnostico darei no dia vinte e sete. Deve ser
por causa do meu ultimo relatório que eles me pediram para atende-lo. Isto
porque nem viram o de ontem.
- Edgar me disse que ele
andou lhe provocando ontem.
- Sim, eu só queria saber
como ele descobriu toda aquela informação. As vezes parece que ele sabia que
estaria preso. Que ele tramou tudo aquilo.
- Quantas vezes você o
atendeu?
- Hoje será a sexta. Nas
primeiras vezes ele apenas assoviava, ou ficava repetindo tic´s. Ontem ele
resolveu falar.
- E você sabe porque?
- Não faço ideia. Mas vou
tentar descobrir. Seguiu em direção a porta.
- Larissa?
- Sim.
- Tome cuidado.
- Pode ficar tranqüila.
Larissa seguiu por um
corredor, atravessou a porta que dava inicio para a portaria do presídio Federal
de Campo Grande. Tentou manter as idéias fixas em como faria Fernando falar dos
assassinatos. Quando chegou em frente a porta que daria entrada a sala, onde
com certeza ele a esperava, ela parou, suspirou fundo e entrou:
- Bom dia Doutora.
- Bom dia Fernando.
- Como passou a noite?
- Bem e você?
- Eu não sei se gosto de
dormir em quarto escuro, sob o chão frio, em um lugar que se eu não posso abrir
os braços. A senhora sabia que urino no mesmo local que durmo? Sem falar de
onde defeco. Mas claro que a senhora não esta interessada, aposto que gostaria
de saber por que resolvi falar na quinta vez que nos encontramos.
Larissa ficou calada,
tácita. O homem que estava a sua frente era o motivo real por ter se
especializado tanto naquela área. Após dez anos de trabalho ela clamou dia após
dia por um alguém que a fizesse sentir porque realmente havia perdido tanto
tempo da sua vida estudando. E aquele ali era o motivo real de tudo aquilo. Mas
e agora que ela estava diante de seu desejo, o que ela deveria fazer? Como
agir?
- É melhor começarmos mais
cedo, ontem a senhora saiu e me deixou aqui falando sozinho. Eu não gosto de
ficar só. Quando eu era pequeno ficava muito tempo sozinho em casa. Sabia que
isto me deixou um trauma?
Ela sabia de toda a história
de vida de Fernando. Desde o seu nascimento até os dias atuais, de sua infância
sofrida, de ter sido abandonado em um saco plástico no lixo por sua mãe, e ter
sido encontrado por um casal pervertido que abusou dele até ele completar doze
anos de idade. Quando tudo foi descoberto e ele encontrou seu verdadeiro pai, o
Senador Elias Magalhães. E que a partir de então teve a oportunidade de estudar
nos melhores colégios, e virou um fenômeno no meio acadêmico, quando aos dezessete
anos entrou na USP em primeiro lugar no curso de direito e medicina. Havia se
decidido por cursar os dois. No jornal interno da universidade as publicações
diversas sobre teus feitos. Era um garoto prodígio. E de repente quando faltava
menos de dois anos para se formar ele abandonou ambos os cursos e ninguém teria
mais noticias dele. Era como se tivesse morrido.
- Senhora, se não iremos
mais conversar é melhor eu me retirar. A senhora esta um pouco dispersa, será
que já descobriu os podres de seu marido?
- Não estamos aqui para
falar de minha família.
- A que peninha, porque eu
sei coisas que a senhora com certeza iria gostar de saber. Ou melhor, não iria
gostar.
- Senhor Fernando, me fale
um pouco a respeito de sua infância.
- Esta certo, esquecerei o
fato de a senhora ter sido traída mais uma vez. E falarei um pouco de mim.
Ela respirou fundo, sentia o
suor escorrer por sua face. Tentava manter o controle o máximo possível, mesmo
que ele estivesse falando a verdade ela precisava se concentrar em seu
trabalho.
- Bem, acho que a senhora já
sabe que minha mãe me abandonou quando eu ainda era pequeno, não posso relatar
sobre esta parte porque eu não me lembro dela. Será muito mais fácil se a
senhora fizer uma pesquisa detalhada, ou melhor, tornar a ler as suas
abordagens.
- Sim, prossiga.
- Eu bem sei que quer que eu
fale sobre o casal Valadares, João e Denise. Bem eles não eram os melhores pais
do mundo. A isto eles não eram mesmo...
Enquanto ele falava, Larissa
tentava ver em seus gestos ou traços faciais algo que demonstrasse a realidade
de seu comportamento. Porém, Fernando não se movia muito. A não ser para coçar
alguma parte do rosto, ou retirar uma parte do cabelo que lhe incomodava os
olhos.
- ...ele era um homem muito rígido,
nunca me permitiu errar. Certa vez quando construíamos a minha casa na arvore,
perfurei a madeira um ou dois milímetros acima da marca que ele havia feito com
o lápis, então ele disse: “Seu idiota, como quer ser um médico? Acha que pode
operar a cabeça de alguém e errar o corte? Em uma operação não pode haver erros”,
quando terminou a frase retirou a furadeira das minhas mãos, e fez um furo em
meu pé. Se a senhora olhar bem ainda tenho a marca. Esta ai no direito.
- Larissa olhou e lá estava à
marca, pequena, não dava para observar direito, porque ele estava algemado
também nos pés. Ela observou que além daquela havia outras, no rosto, nas
mãos...
- Pois é senhora, todas estas
marcas que esta vendo foi o João quem fez. Através delas eu aprendi muito. E
deixei de errar quando completei dez anos.
- E Denise?
- Bem era uma boa
cozinheira.
Como viu que ele não falava
mais dela, perguntou:
- Somente?
- Eu sei do que a senhora
quer que eu fale, está esperando algo que explique o motivo de eu ter cometido
aqueles assassinatos. Bem, não é por este motivo que eu fiz aquelas coisas. Talvez
isto tenha me ajudado a criar a coragem. Mas nunca pensei em me vingar do
casal, ou na sociedade. Acredito que cada um tem um destino na vida. As pessoas
olham para mim hoje, e me vêem como um ser errante, ou como a senhora faz
acredita que meu passado tem algo a ver com isto. E realmente ele tem. Foi
através de tudo que vivi, que me tornei quem sou. Certos filósofos dizem que
seus atos definem quem você é, eu lhe direi que quem você é define teus atos.
- Fez tudo por prazer?
- Não foi prazer senhora,
acha que ficava feliz em realizar tudo aquilo?
- Não acho que ficava feliz.
Só queria que pudesse me explicar que se não era vingança conta o sistema, qual
o verdadeiro motivo para fazer.
- Eu já lhe disse a respeito
disto. Eu só adiei o que tão logo aconteceria. Mas se a senhora insiste em
saber. Eu tive uma infância conturbada, como a senhora pode ver. Além de sofrer
torturas físicas, João e Denise faziam de mim um brinquedinho sexual. Mas
quando o fato veio à tona, ninguém pensou em mim. Sabe, a senhora pensa que foi
fácil me ver em todas aquelas manchetes como sendo o menino abusado. Na escola,
em todos os lugares. Eles me perguntavam disto. Era dia após dia, falando de
como eu havia sido abusado sexualmente e torturado toda a minha vida. Fui
exposto ao ridículo. Quando o senador me reconheceu como filho, foi que
começaram a me olhar como sendo um alguém promissor. Afinal teria um futuro. O
dinheiro senhora Larissa. O dinheiro. É tudo que as pessoas enxergam em sua
frente. O dinheiro e a desgraça alheia.
- Perceba você mesmo
Fernando. A revolta em suas palavras.
- Talvez ao falar disto, eu
sinta pequeno remorso. Mas quando matei aquelas pessoas, eu apenas as livrei de
toda a dor que eu passei na minha vida. Acha que é fácil ser eu?
- Esta dizendo que matou
aquelas pessoas para as livrarem de passar pelo que passou?
- Exatamente.
- Mas isto não é possível senhor.
Todas aquelas pessoas, nem de longe tiveram a vida que você teve. Nem de longe,
elas passaram pelo que você passou.
- Tem razão. Mas acha que a
vida delas era mil maravilhas?
- Não. Não era, afinal, a de
ninguém é.
- Pois bem, acha que eram no
mínimo natural suas vidas então? Bem vá a cada família. E verifique melhor a
condição de cada uma delas. Enxergará melhor as coisas.
- Do que você esta falando?
- Senhora Larissa, estou lhe
dando um motivo para ter assassinado aquelas pessoas. Não era isto que queria?
- Bem, não é isto. Eu...
- É melhor a senhora ir.
Nosso tempo terminou por hoje, até amanha.
Assim que ele acabou de falar,
o alto falante anunciou pela voz de Edgar:
- Senhora Larissa, acabou o
tempo.
Ela saiu. Encontrou com
Edgar na porta.
- Quero que investigue cada
uma daquelas famílias. E verifique do que ele esta falando.
- Esta bem. Mas antes eu
quero lhe pedir uma coisa.
- O que foi?
- Cuidado com ele. Ele pode
te deixar louca.
- Não se preocupe comigo
Edgar. Mas faça o seu trabalho.
Ele observou enquanto ela ia
embora.
- Lucas, consiga um
mandato para cada família, quero saber o que eles tinham em comum.
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