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18 de ago. de 2012

(Capitulo 2) Depois do Amanhecer


- E ai como foi a sua noite?
- Péssima. Tive uma enxaqueca terrível.
- E nem me fale. E seus meninos?
- Estão bem. Já sabe quem atenderei hoje?
- Pediram para continuar com Fernando.
- Sério? Mas não é um atendimento semanal?
- Sim, mas acharam que era melhor. Para mim podiam dar aquele cara como louco. O psiquiatra disse que ele tem transtorno de personalidade.
- Qual deles?
- O doutor Carlos. Eu fiquei com o assassino da mangueira.
- Eu o atendi uma vez. Ele é bem frio.
- Hoje é o ultimo atendimento. Amanhã ele será transferido para São Paulo. E Fernando?
- Não sei.
- Como assim?
- Não sei o que dizer. Sabe, as vezes ele me parece muito frio, outrora um cara comum, por quem qualquer mocinha se apaixonaria.
- Eu até entendo estas garotas que o seguiram. Mas e os rapazes?
- Fernando é inteligente. Ainda não estou certa de que diagnostico darei no dia vinte e sete. Deve ser por causa do meu ultimo relatório que eles me pediram para atende-lo. Isto porque nem viram o de ontem.
- Edgar me disse que ele andou lhe provocando ontem.
- Sim, eu só queria saber como ele descobriu toda aquela informação. As vezes parece que ele sabia que estaria preso. Que ele tramou tudo aquilo.
- Quantas vezes você o atendeu?
- Hoje será a sexta. Nas primeiras vezes ele apenas assoviava, ou ficava repetindo tic´s. Ontem ele resolveu falar.
- E você sabe porque?
- Não faço ideia. Mas vou tentar descobrir. Seguiu em direção a porta.
- Larissa?
- Sim.
- Tome cuidado.
- Pode ficar tranqüila.
Larissa seguiu por um corredor, atravessou a porta que dava inicio para a portaria do presídio Federal de Campo Grande. Tentou manter as idéias fixas em como faria Fernando falar dos assassinatos. Quando chegou em frente a porta que daria entrada a sala, onde com certeza ele a esperava, ela parou, suspirou fundo e entrou:
- Bom dia Doutora.
- Bom dia Fernando.
- Como passou a noite?
- Bem e você?
- Eu não sei se gosto de dormir em quarto escuro, sob o chão frio, em um lugar que se eu não posso abrir os braços. A senhora sabia que urino no mesmo local que durmo? Sem falar de onde defeco. Mas claro que a senhora não esta interessada, aposto que gostaria de saber por que resolvi falar na quinta vez que nos encontramos.
Larissa ficou calada, tácita. O homem que estava a sua frente era o motivo real por ter se especializado tanto naquela área. Após dez anos de trabalho ela clamou dia após dia por um alguém que a fizesse sentir porque realmente havia perdido tanto tempo da sua vida estudando. E aquele ali era o motivo real de tudo aquilo. Mas e agora que ela estava diante de seu desejo, o que ela deveria fazer? Como agir?
- É melhor começarmos mais cedo, ontem a senhora saiu e me deixou aqui falando sozinho. Eu não gosto de ficar só. Quando eu era pequeno ficava muito tempo sozinho em casa. Sabia que isto me deixou um trauma?
Ela sabia de toda a história de vida de Fernando. Desde o seu nascimento até os dias atuais, de sua infância sofrida, de ter sido abandonado em um saco plástico no lixo por sua mãe, e ter sido encontrado por um casal pervertido que abusou dele até ele completar doze anos de idade. Quando tudo foi descoberto e ele encontrou seu verdadeiro pai, o Senador Elias Magalhães. E que a partir de então teve a oportunidade de estudar nos melhores colégios, e virou um fenômeno no meio acadêmico, quando aos dezessete anos entrou na USP em primeiro lugar no curso de direito e medicina. Havia se decidido por cursar os dois. No jornal interno da universidade as publicações diversas sobre teus feitos. Era um garoto prodígio. E de repente quando faltava menos de dois anos para se formar ele abandonou ambos os cursos e ninguém teria mais noticias dele. Era como se tivesse morrido.
- Senhora, se não iremos mais conversar é melhor eu me retirar. A senhora esta um pouco dispersa, será que já descobriu os podres de seu marido?  
- Não estamos aqui para falar de minha família.
- A que peninha, porque eu sei coisas que a senhora com certeza iria gostar de saber. Ou melhor, não iria gostar.
- Senhor Fernando, me fale um pouco a respeito de sua infância.
- Esta certo, esquecerei o fato de a senhora ter sido traída mais uma vez. E falarei um pouco de mim.
Ela respirou fundo, sentia o suor escorrer por sua face. Tentava manter o controle o máximo possível, mesmo que ele estivesse falando a verdade ela precisava se concentrar em seu trabalho.
- Bem, acho que a senhora já sabe que minha mãe me abandonou quando eu ainda era pequeno, não posso relatar sobre esta parte porque eu não me lembro dela. Será muito mais fácil se a senhora fizer uma pesquisa detalhada, ou melhor, tornar a ler as suas abordagens.
- Sim, prossiga.
- Eu bem sei que quer que eu fale sobre o casal Valadares, João e Denise. Bem eles não eram os melhores pais do mundo. A isto eles não eram mesmo...
Enquanto ele falava, Larissa tentava ver em seus gestos ou traços faciais algo que demonstrasse a realidade de seu comportamento. Porém, Fernando não se movia muito. A não ser para coçar alguma parte do rosto, ou retirar uma parte do cabelo que lhe incomodava os olhos.
- ...ele era um homem muito rígido, nunca me permitiu errar. Certa vez quando construíamos a minha casa na arvore, perfurei a madeira um ou dois milímetros acima da marca que ele havia feito com o lápis, então ele disse: “Seu idiota, como quer ser um médico? Acha que pode operar a cabeça de alguém e errar o corte? Em uma operação não pode haver erros”, quando terminou a frase retirou a furadeira das minhas mãos, e fez um furo em meu pé. Se a senhora olhar bem ainda tenho a marca. Esta ai no direito.
- Larissa olhou e lá estava à marca, pequena, não dava para observar direito, porque ele estava algemado também nos pés. Ela observou que além daquela havia outras, no rosto, nas mãos...
- Pois é senhora, todas estas marcas que esta vendo foi o João quem fez. Através delas eu aprendi muito. E deixei de errar quando completei dez anos.
- E Denise?
- Bem era uma boa cozinheira.
Como viu que ele não falava mais dela, perguntou:
- Somente?
- Eu sei do que a senhora quer que eu fale, está esperando algo que explique o motivo de eu ter cometido aqueles assassinatos. Bem, não é por este motivo que eu fiz aquelas coisas. Talvez isto tenha me ajudado a criar a coragem. Mas nunca pensei em me vingar do casal, ou na sociedade. Acredito que cada um tem um destino na vida. As pessoas olham para mim hoje, e me vêem como um ser errante, ou como a senhora faz acredita que meu passado tem algo a ver com isto. E realmente ele tem. Foi através de tudo que vivi, que me tornei quem sou. Certos filósofos dizem que seus atos definem quem você é, eu lhe direi que quem você é define teus atos.
- Fez tudo por prazer?
- Não foi prazer senhora, acha que ficava feliz em realizar tudo aquilo?
- Não acho que ficava feliz. Só queria que pudesse me explicar que se não era vingança conta o sistema, qual o verdadeiro motivo para fazer.
- Eu já lhe disse a respeito disto. Eu só adiei o que tão logo aconteceria. Mas se a senhora insiste em saber. Eu tive uma infância conturbada, como a senhora pode ver. Além de sofrer torturas físicas, João e Denise faziam de mim um brinquedinho sexual. Mas quando o fato veio à tona, ninguém pensou em mim. Sabe, a senhora pensa que foi fácil me ver em todas aquelas manchetes como sendo o menino abusado. Na escola, em todos os lugares. Eles me perguntavam disto. Era dia após dia, falando de como eu havia sido abusado sexualmente e torturado toda a minha vida. Fui exposto ao ridículo. Quando o senador me reconheceu como filho, foi que começaram a me olhar como sendo um alguém promissor. Afinal teria um futuro. O dinheiro senhora Larissa. O dinheiro. É tudo que as pessoas enxergam em sua frente. O dinheiro e a desgraça alheia.
- Perceba você mesmo Fernando. A revolta em suas palavras.
- Talvez ao falar disto, eu sinta pequeno remorso. Mas quando matei aquelas pessoas, eu apenas as livrei de toda a dor que eu passei na minha vida. Acha que é fácil ser eu?
- Esta dizendo que matou aquelas pessoas para as livrarem de passar pelo que passou?
- Exatamente.
- Mas isto não é possível senhor. Todas aquelas pessoas, nem de longe tiveram a vida que você teve. Nem de longe, elas passaram pelo que você passou.
- Tem razão. Mas acha que a vida delas era mil maravilhas?
- Não. Não era, afinal, a de ninguém é.
- Pois bem, acha que eram no mínimo natural suas vidas então? Bem vá a cada família. E verifique melhor a condição de cada uma delas. Enxergará melhor as coisas.
- Do que você esta falando?
- Senhora Larissa, estou lhe dando um motivo para ter assassinado aquelas pessoas. Não era isto que queria?
- Bem, não é isto. Eu...
- É melhor a senhora ir. Nosso tempo terminou por hoje, até amanha.
Assim que ele acabou de falar, o alto falante anunciou pela voz de Edgar:
- Senhora Larissa, acabou o tempo.
Ela saiu. Encontrou com Edgar na porta.
- Quero que investigue cada uma daquelas famílias. E verifique do que ele esta falando.
- Esta bem. Mas antes eu quero lhe pedir uma coisa.
- O que foi?
- Cuidado com ele. Ele pode te deixar louca.
- Não se preocupe comigo Edgar. Mas faça o seu trabalho.
Ele observou enquanto ela ia embora.
- Lucas, consiga um mandato para cada família, quero saber o que eles tinham em comum. 

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