Às vezes eu fico pensando, o
que será o bem? O que será o mal? Quem é bom? Quem não é? Ajudar uma senhora atravessar
a rua, é fazer o bem? Ser educado é ser um bom filho? Não ferir as leis é ser
um bom cidadão? Meu nome é Fernando, tenho vinte e três anos, acredito que por
noventa e nove por cento da população eu sou considerado mal, e para o
restante, inclusive minha mãe, se soubessem do que faço, me considerariam
louco.
- E Você?
- Eu? Para mim sou apenas
mais um entre tantos outros, que vive da melhor forma que pode, e faz aquilo
que quer. Você pode considerar hipocrisia, mas é a verdade. Hipocrisia é viver
em mundo se fazendo de santo e ser um covarde em assumir seus atos.
- Mas não é o que você
fazia? Você não foi pego, enquanto se escondia?
- Você esta falando de um
fato isolado. Eu nunca escondi o que fazia, nunca forcei ninguém a me seguir. E
todas aquelas pessoas que eu escolhi, todas elas, eu apenas adiantei o sofrimento
que causariam as pessoas que gostam, e a si mesmos.
- Você considera que fez o
bem a estas pessoas?
- De uma maneira sim.
- E todas aquelas mãe que
ainda choram? E todas as famílias que sentem falta?
- Isto é apenas como elas vêem
o que aconteceu. Todos eles eram apenas pessoas que não teriam futuro algum, eu
apenas fiz o melhor para eles. Evitei um transtorno muito maior, todos me
julgam, mas ninguém aqui sabe a verdade.
- E o que é a verdade?
- Eu estou te entendendo,
todo este teu joguinho. Você quer que eu pire, que eu grite, brigue contigo.
Isto não vai acontecer. Eu passei toda minha vida sabendo que isto iria
acontecer, eu nunca achei que sairia impune.
- Então você concorda que
merece uma punição?
- É o que a legislação
brasileira diz. Ela é bem clara.
- Então você reconhece que
cometeu algum crime contra a legislação?
- É você quem esta dizendo,
o que eu estou dizendo é o seguinte, perante a legislação eu errei. Mas isto
não quer dizer que eu concorde com isto. E aliás, eu duvido que a doutora não
tenha cometido algo que ferisse o código de leis brasileiro, ao menos uma vez
na vida.
- Não senhor, eu nunca
cometi.
- Bem Doutora Larissa
Benderbergue de Oliveira Castro. Oliveira da mãe, Castro do pai. Uma linda
menina quando nasceu, sabiam que ia ser um prodígio aos 07 anos de idade quando
construiu seu primeiro vulcão ao assistir um filme pela televisão. Se formou em
psicologia pela UFSP, fez mestrado em criminologia também pela UFSP, e
doutorado em ciências criminais pela UFMG.
Atualmente é casada, tem dois filhos, uma meninha linda de dois anos, eu
a vi, aqueles olhos, o cabelo louro...
- Cale a boca.
- Tão branquinha, linda. Seu
menino também é lindo. Parece com o pai...
- Cale a sua boca, seu
cretino. Desgraçado.
- Esta ficando nervosa
senhora? Deve manter o controle, afinal você é quem é a profissional por aqui.
Larissa abriu a porta e
saiu. Ela seguiu em direção ao banheiro, assim que chegou, ficou olhando no
espelho, dobrou a manga da camisa, encheu a mãe de água e lançou sobre o rosto.
A imagem do rosto de Fernando não saía da sua cabeça, aquele homem deve ser um
louco.
- Calma Larissa, não perca a
compostura. Respire fundo.
Como se alguém estivesse
dizendo para a ela o que fazer ela obedeceu. Agora já estava mais racional.
Saiu do banheiro, pegou sua bolsa em cima da mesa e foi para casa. Seu
expediente havia terminado.
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