Quando entrou na sala
Fernando escancarou os dentes, ela ficou assusta. Não sabia identificar o
motivo de tanta felicidade, ficou incomodada, mas seguiu em frente, enquanto
sentava disse:
- Bom dia, Fernando.
- Bom dia doutora. Já percebeu como o dia
está lindo? A senhora conhece aquela música que fala dos pássaros? Eu a adoro
sonhei que minha vida era uma música, era esta musica. Fernando parou um
instante enquanto Larissa o olhava fazendo força para não deixar transparecer o
que estava pensando. Na realidade ela não queria que ele descobrisse que ela
estava perdida. Mas uma vez ela não sabia o que fazer. Como isto poderia estar
acontecendo? Foi então que ele se pôs a cantar, com um sorriso estampado no
rosto e balançando o corpo para a esquerda e para a direita: - Well I didn't tell anyone but, A bird flew by and
saw what I'd done, It set up a nest outside, And he sang about what I'd become.Olhou
para ela e sorriu. -
A senhora consegue sentir a essência da música?
Ela olhava para ele. Ainda
em silencio. – O que houve doutora o gato comeu sua língua?
- Gostaria de saber o motivo
real da sua felicidade. Eu realmente não entendo.
- Ora como isto é feio ter
inveja da felicidade alheia. Aposto que depois do que aconteceu ontem esperava
por alguém no mínimo furioso. Mas não tiro sua razão, estive pensando sobre
ontem. Acredito que realmente me excedi tenho que lhe pedir desculpas.
- Porque achas que me deve
desculpas?
- Antes de ontem, se lembra
de nossa conversa? Eu não devia ter lhe contado sobre o teu esposo, entendo que
a senhora deve ter ficado bem chateada com o que eu lhe disse, e quis se
vingar. Claro que isto é um sentimento comum, somos humanos, temos nossos erros.
Eu assumi o meu, te peço desculpas.
Larissa olhou para ele,
pensou em revidar com fúria, porém em um suspiro profundo pareceu compreender o
que Fernando dizia:
- Você pensa que isto aqui
se trata de mim ou de qualquer outra pessoa não é mesmo? Não tem haver comigo.
É você Fernando. Sempre foi desde o inicio.
Ele olhou para ela, levantou
o pescoço como se quisesse ver além dela. Ela olhou para trás não havia nada
por lá.
- Esta vendo senhora. Ai é que esta. Eu olho
e vejo tudo. A senhora só enxerga o que eu lhe mostro. Claro que sou eu, e
assim será até eu dizer que é. Como a música diz, I opened my mouth to scream and shout, I waved my arms and flapped about,
But I couldn't scream and I couldn't shout, Couldn't
scream and I couldn't shout. É o mesmo que a senhora esta
sentindo agora. Esta desorientada e estamos chegando no dia. O que vai dizer?
Eu no seu lugar desistia do caso. Sabe tem que saber ser um bom perdedor. Eu
percebi quando era a ora de me entregar.
- Não diga
bobagens, você quer que eu acredite que foi você quem planejou tudo?
- Bem não quero
que acredite em nada, a não ser que eu só digo a verdade e por isso vou lhe dar
um prêmio. Aliás, a senhora merece, me surpreendeu ontem. Eu nunca perdi tanto
o controle como ontem. Esta de parabéns, quase que cometo uma tolice e acabo
finalizando tudo antes do momento certo...
Ela o interrompeu.
- E qual o momento
certo?
- Saberá quando
chegar. Ele respondeu dando uma pausa. Depois continuou: - Bem eu tive um
apartamento na Av Pedro II, no segundo andar, numero vinte e dois. Bem, eu
ainda possuo este apartamento. Acho que depois que a senhora pedir que ele seja
examinado poderá perceber que tudo foi planejado por mim antes. E quem sabe
então possa conversar comigo como eu mereço. E só então poderei dizer o que
vocês precisam saber.
- Não estou
preocupada com o que você tem para dizer.
- Eu no seu lugar
estaria. Afinal é você quem tem que se mostrar competente. Eu sou apenas um criminoso
nos termos da lei.
- Não se preocupe
comigo, eu sei me cuidar e sei da minha competência. Eu já lhe disse o caso
aqui é você e não eu. Já deveria saber disto.
Como se estivesse
ignorando o que ela dizia ele falou:
- Aposto que neste
instante eles já devem estar se encaminhando para o endereço que eu disse. Se
puderem me trazer o cobertor que esta dentro do guarda roupa vou ficar
satisfeito, tem feito muito frio à noite, e ele é antialérgico, não gosto de
ficar espirrando. Eles bem que poderiam começar pelo freezer vão adorar o que
encontrarem por lá.
Pelo sorriso que
ele deixava soar, ela percebeu que ele dizia a verdade, sentiu raiva porque
estava perdendo outra vez e somente porque ficou tão feliz em ter vencido um único
dia que se esqueceu de trabalhar no que faria naquele dia. Como ela podia ter
se deixado levar por tão pouco? Ela não sabia, agora era hora de tentar
contornar o fato. Mas não hoje porque o tempo havia terminado. Bem, ao menos
era o que o alto falante soava na voz de Lucas.
- Bom dia
Fernando.
- Bom dia Doutora, boa sorte. Ela saiu o ouvindo cantar: - I picked up the
bird and above the dim I said, "That's the last song you'll ever
sing", Held him down broke his neck, Taught him a lesson he wouldn't
forget.
Entrou na porta lateral, lá estava Lucas só.
- Onde esta ele?
- Quem o chefe?
- Exato.
- Na Av. Pedro II, no segundo andar, aparta...
- Eu já entendi. Obrigada. Ela saiu vagarosamente
pensativa.
.................
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Me fale seu nome completo.
- E porque quer saber?
- Apenas rotina.
- Não gosto de rotina, é por
estes e outros motivos que passo a vida a viajar.
- Bem não precisa dizer se
não quiser.
- Tudo bem.
- Onde conheceu Fernando?
- Que Fernando?
- Você sabe de quem eu estou
falando.
- Bem conheço muitos
Fernando, o senhor poderia ser mais especifico?
- Claro. Respondeu Edgar. –
O Fernando que foi preso por assassinar vinte e sete pessoas e de provavelmente
dar sumiço em mais quatro.
- A sim, esta falando de
Pedro.
- Pedro?
- Sim é assim que eu o
chamava.
- Que tipo de relação vocês
tinham.
- Nós éramos amigos. Ele me
contava sobre com queria modificar o mundo e eu dizia para ele dos meus sonhos.
Era tudo em reciprocidade.
- Como se conheceram.
- Foi de um jeito bem
estranho. Eu estava na fila de um caixa de supermercado, o BH. Carregava uma
sacola de absorventes e ele me veio com um papo de que nenhuma mulher deveria
usar absorvente, afinal todo mundo sabe que ela menstrua, o correto seria usar
saia durante aquele período e deixar escorrer pelas pernas. Eu disse para ele
que era nojento. Mas ele até que quase me convenceu do contrário.
- E depois onde se viram
mais?
- Em diversos lugares.
Algumas vezes eu pensei que ele me seguia, como eu nunca ia ao mesmo lugar mais
de uma vez, acreditei que ele devesse estar me seguindo.
- Que tipo de lugares eram
estes?
- Lojas, boates, barzinhos.
Em quase todos os lugares que eu freqüentava.
- Obviamente você comentou
isto com alguém?
- E comentar com quem?
- Com alguém da sua família,
amigos.
- Não tenho ninguém.
- Tenho aqui nesta prancheta
que você tem pai e mãe. E que ambos moram em Minas Gerais, e, aliás, sua mãe
Andréia, você mora com ela.
- Minha mãe, para que serve
ela? É uma alcoólatra.
- Me fale o que você sabe a
respeito de Fernando.
- Pedro.
- É Pedro.
- Bem ele era um bom cara,
pelo menos era isto que ele parecia. Chegou a me dar alguns presentes, mas nada
além disto entende? Fui uma vez na casa dele próximo ao shopping Itau, em
Contagem. Tipo lá rolou uns amassos e tals. Mas nada demais.
- Nestas suas conversas
alguma vez ele te falou dos crimes que cometia? Alguma vez ele te deixou saber
que era um criminoso a sangue frio?
- Claro que não. Tu ta
louco? Se ele tivesse feito isto com certeza eu não seria sua amiga e nem tinha
ficado com ele.
- A senhorita esta ciente de
que você era a próxima vitima dele?
- Não acredito nisto. Ele
teve a chance de me matar diversas vezes, eu confiava nele mais do que em
qualquer outra pessoa. Porque ele não o fez?
- Ele não age assim, tem o
seu tempo. É o prazer dele.
- Não comigo. Certo dia ele
me disse que precisaria se ausentar, mas que tudo que eu soubesse durante este
tempo a respeito dele, provavelmente seria verdade. Mas que primeiro eu o
julgasse pelo o que nós vivemos não pelo que eu ouvia ou via por ai. Eu
acredito nele sabe.
- Mesmo depois de ele ter
mentido o nome para você?
- Sim mesmo depois disto. Pedro
é um bom homem, talvez mal compreendido.
- Mas ele assassinou vinte e
sete pessoas, como pode ser mal compreendido?
Perguntou Edgar repetindo o
movimento que ela fez com os dedos de hipótese.
- Eu não sei os motivos
dele, você sabe?
- Não. Mas isto não
justifica, matar vinte e sete pessoas a sangue frio te faz uma má pessoa.
- É você quem esta dizendo
senhor. Eu acredito que todos nós merecemos uma segunda chance. Para mim ele se
entregou por me amar. Por finalmente ter tido alguém que o amou de verdade.
Isto acontece sabia?
- Ele não se entregou, nós o
encontramos.
- De qualquer maneira eu
acho que vocês e toda a mídia estão errados sobre ele. Só quem sabe o que esta
passando é quem viveu aquilo tudo. Você não viveu o mesmo que ele, como pode
julga-lo?
- Não sou eu quem o julgo, é
a lei. E ela não vai lembrar-se de toda a história de vida dele.
- Esta certo. Tem mais
alguma coisa senhor?
- Sim tenho.
- Então diga.
- Você ainda o ama?
- Eu nunca disse que o
amava.
- Não me respondeu Elisa.
- Sim eu o amo.
- Como pode amar um
assassino?
- Da mesma forma que Deus
pode amar os humanos.
- Não é a mesma coisa.
- Estamos falando de amor
senhor, e quando se trata de amor verdadeiro, é tudo a mesma coisa.
Ela se levantou e saiu pela
porta. Ele pegou sua garrafinha do bolso e tomou um gole. Aquilo já estava
ferindo seu ego. Ia explodir a qualquer momento.