Sentada dentro de uma sala
não muito grande, com a luz baixa centrada no abajur sobre a mesa. Elisa olhava
ao redor, ainda não entendia porque estava ali. Olhou no relógio, marcavam
dezessete horas. Já estava esperando a mais de quarenta minutos. Levantou-se,
olhando para o painel de vidro que apenas a refletia pode ver a câmera.
Balançou os braços como chamando alguém.
- Oi. Tem alguém ai? Eu to
com fome.
Do outro lado da vidraça.
Observando a garota se mover pela sala, Edgar, Lucas e Larissa permaneciam
calados. Até que Larissa quebrou a lei do silencio.
- Vamos até lá. Ela não é
nenhuma criminosa, não acho que deva receber o mesmo tratamento. Isto é contra
as regras Edgar. E você sabe.
- Sim eu sei.
- Então?
- Fica quieta ai.
Eles ficaram observando a
garota por mais uma hora e vinte. Até que Edgar disse:
- Lucas, vá lá e diga a ela
para voltar amanhã neste mesmo horário, invente qualquer coisa por não termos
podido colher seu depoimento hoje, mas não fale o motivo de ela estar aqui.
- Mas senhor... Edgar
franziu a testa de tal maneira que Lucas não terminou a frase, prosseguiu.
Larissa ficou olhando para o Edgar, mas, não disse nada. Ela não conseguia
entender sua atitude.
- Não tente decifrar minha
cara, amanhã saberá.
- Parece que todos neste
lugar lêem pensamentos. O que esta havendo?
- Não somos nós doutora, é
você. Seu rosto fala muito mais do que suas palavras. Larissa pensou mais uma
vez em falar, e outra vez se calou. Talvez ele tivesse razão, ficou durante um
tempo no banheiro feminino, treinando em frente ao espelho caras e bocas. Até
que desistiu.
....................
Larissa acabou de almoçar e
seguiu para a sala. Fazendo seu ritual costumeiro, estalou os dedos e respirou
fundo, entrou.
- Boa tarde doutora.
- Boa tarde, Fernando. Como
estas?
- Você tem mesmo a mania de
perguntar como as pessoas estão, ou apenas faz isto porque não sabe como
iniciar um assunto comigo?
Larissa olhou dentro dos
olhos dele, “é verde pensou”, em todo este tempo ela jamais havia percebido
como eram verdes, pareciam água de piscina.
- O que foi doutora acaba de
descobri que tenho razão?
- Não é isto.
- Entendo.
- Sabe Fernando, eu pensei
diversas vezes do porque de você matar, e acho que seu discurso de salvação do
mundo é inválido. Continuo com a tese de que você é um porco egoísta, achou que
matando as pessoas que passavam pelo mesmo problema que você, poderia causar
dores nas pessoas que causavam estes problemas. Mas não conseguiam limpar-se
não é mesmo?
Ao perceber que os pés de Fernando
começaram a se mover, ela enfim acreditou ter criado algo diferente nele e
continuou:
- Porque eu sei que não foi
legal, sua mãe te jogou no lixo, que espécie de mãe faz isto com uma criança?
Sabe, eu acredito que sei qual a profissão de sua mãe. Para mim ela é vidente.
Ela deveria saber que espécie de porco você se tornaria.
O alto falante soou:
- Doutora, se controle. Ela
olhou para a câmera:
- Fica na sua. Eu sei fazer
o meu trabalho. Voltou-se para Fernando. Agora ele assoviava como se não
quisesse ouvir o que ela falava. – Fernando. Diga-me uma coisa, você tem
coragem de se enfrentar no espelho? Não deve ter espelho na sua casinha não é?
Eu acho que tenho um espelho por aqui, em algum lugar. Disse ela revirando sua
bolsa. – Sabe é difícil encontrar alguma coisa em bolsa de mulher. A não, disso
você não deve saber. Pronto, aqui esta. Olhe.
Fernando olhou para o
espelho, ficou quieto.
- O que você vê? O silencio
prevaleceu. – Responda porquinho, oinc oinc. Fernando ficou nervoso, começou a
se balançar na cadeira de tal modo que ela tombou, enquanto Larissa pensava no
que falar, ele começou a gritar:
- Você não sabe. Você não
sabe o que é ser eu. Sua classe média de merda.
E novamente o alto falante
soou:
- Doutora, chega por hoje.
Ela agachou-se ao lado dele.
Olhando para frente disse:
- Pronto, desta vez é você
quem esta no chinelo. E se retirou.
Deu de cara com Edgar que
furioso falou aos gritos:
- O que pensa que esta fazendo?
Não gosta do seu emprego? Não da conta do recado? É só dizer, eu lhe demito.
Mas tem que ser no mínimo digna. Ela continuava a caminhar. Sem dar atenção
para o que ele falava. – Já entendi, é isto que você quer? Ela parou a
caminhada, olhou para ele:
- Você não entendeu nada.
Mas pode fazer o seu trabalho que eu faço o meu.
- Do que você esta falando?
- Eu tenho uma brecha,
depois de tantos dias, enfim, consegui uma fresta para continuar. E você me
enche de sermão?
- Do que você esta falando?
- Leia amanha no relatório.
Meu horário findou.
- Senhora Larissa. Eu
preciso que me diga isto agora... Não continuou, ela já não estava mais na
sala. Provavelmente não lhe ouviria. Ele retirou uma garrafa do bolso, tomou um
gole. Olhou bem para a pequena garrafa, estava escrito “Whisky Americano”,
virou todo o conteúdo. Olhou no relógio e também partiu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário