Translate

Encontre o que procura!

17 de jan. de 2017

Lutar pelo LUTO: Eu luto?

Me lembro como se fosse hoje, correndo pelos becos da rua Senhor do Bonfim, no bairro Jardim Teresópolis, em Betim, Minas Gerais. Ruas de terra eram meu local de refúgio do dia a dia. Roubo? Só se fosse de bandeiras. Esconder? Só se fosse até o 100. As rodas eram para cirandar. Descendo e subindo morros, de Aristides a Teotônios. Nossos canos eram madeiras, nossas armas a imaginação. O nosso maior crime? Cair no posto. Ai se nossas mães descobrissem. Os pais nem se fala. Estes últimos chegavam cansados, de um logo dia de exploração capitalista. E nós a mercê do tempo, do vento e dos queijos. Lembro quando ia correndo aos bares do Tatá, do Jurandir, eram doces, pipocas, refrigerantes, balas de um centavo de amendoim.

Na escola apelidos e correria. Vozes gritando pela merenda. Vozes gritando pelos amigos. Não era local de estudar. Era de divertir, aprontar. Nosso maior crime? Matar... Aulas. Furar fila da comida. Uma provocação com o amigo. Um puxão de cabelo nas amigas. Porém nada superava o crime maior: Colar na prova.

As Braúnas, as Belo Horizontes. Os Vila Recreio, os Vila Bemges, os Laranjeiras. Tudo era pequeno para nós. Pernas? Serviam para correr. Para subir a Campo Formoso pela manhã e ir para Nosso Sonho Encantado, ou para a Creche.

Até que um dia eu ouvi: É 10. É 10. Susto, tensão. Tiroteio. O que está havendo? Correria. Agitação. Barulho. Tem um cadáver na esquina. Que esquina? Na minha esquina. Bem em frente ao Tatiane e Cristiane. Que houve? Criança não precisa saber.

Dormir? Apenas quando o cansaço puxasse. Quando o João Pestana viesse fazer seu trabalho. No outro dia bem cedo. Brincar de Betis em frente em casa, ao lado do São Gabriel era desafiador. Um pouco mais a frente, quando se ia buscar uma bala, ou comprar um saquinho de leite, havia a lembrança do ontem. SANGUE.

Passou-se um dia, um ano, ou mais. O tempo é impreciso com esta memória infantil. Mas não dá para esquecer. Não são os detalhes. O coração desaprende de aprender o luto.

Meu primeiro cadáver aconteceu quando eu tinha apenas 10 anos. Eu corria pelo beco largo e logo atrás de mim um amigo. Assim que viramos a rua ele me olhou assustado. Gelado. Era manhã de sábado. Eu entendi aqueles olhos. Um homem. Não qualquer homem, um pai de um amigo. Estirado ao chão rosto desconfigurado. Sangue. Uma poça de sangue. MÃE.

Meu segundo cadáver. Ainda me impactou. Era outro pai de amigo. Alto, gordo, blusa azul. Facada na barriga. E um tiro no peito.

Meu terceiro cadáver. Foi o mais sentido de todos. Um amigo. O mesmo que corria comigo. Meu amigo.

E os cadáveres aumentaram em tal proporção que já não fazia mais sentido chorar. Um a um, era apenas um dia. As vezes com a frase: Quem mandou se envolver nesta vida... Também era filho de quem?... Lembra o pai? Era igualzinho. BASTA. Não quero mais sofrer. Um cadáver é um cadáver. Cada um tem o que as mãos cavam. E ESTAS CAVAM.

Se não bastasse a vida em sete palmos. Havia a poeira estigmatizada na vida feminina. Lembro de uma amiga, bem, não era tão minha amiga. Era amiga de minha irmã. Um dia sentadas na vã. Ela diz em alto som: Abortei. ASSASSINA. Sim, abortei 3 vezes. 14 ANOS? ASSASSINA.

Um tempo depois uma amiga me liga. Sabrina tô grávida. GRÁVIDA? De quem? um filho, dois filhos, três filhos, quatro filhos. 29 anos. NOSSA, um filho de cada pai. O marido tá preso. Se mete com vagabundo.

Uma ligação: ALÔ. Oi. TO trabalhando na esquina da FIAT, as vezes pego na Petrobras também. Que faz? BOQUETE. VAGABUNDA.

Depois de tantos cadáveres. Uma jovem morre ao ser assaltada. Só mais um caso na folha de jornal. NÃO. Era minha amiga de segunda série do fundamental.

Que isso que tá fumando? Maconha. Eu cheiro COCAÍNA. Fumo CRACK. Vários zumbis no beco em frente.

DE 10, VIROU HOMEM. Olha os Homi ai. SOBE FOGUETE, DESCE FOGUETE. A vida contínua. O tempo passa.

Descendo a rua com um três oitão, o menino amigo meu. Bala perdida. Morreu a filha de uma amiga. Sua sobrinha.

OS CANA. Invasão de casa. Usam seu telhado. Aqui não há lei. Somos as vitimas. Somos os culpados.

E em pleno 2017: Um casal assassinado, carbonizado. TUDO BEM. ELE JÁ FOI PRESO. ELA NAMOROU BANDIDO. ERA PERIGOSO. Vi crescer, já carreguei no colo aquele menino.

E o luto acaba meia hora depois. Permanece apenas no FACEBOOK.

O Jurandi já se foi, O Tatá levou um tiro. Muitos amigos e amigas deram adeus. E na Bonfim alguns pessoas de "bem" permanecem... Assim como os preceitos da sociedade. Salas de aulas lotadas, ônibus lotados, cadeias lotadas, corpos lotados. Carteiras vazias, mentes vazias, ideias vazias.

Lá nos morros que cresci, outros morreram e não foram de overdose. Outra moça grávida e não foi porque quis. Outro filho sem pai, outro pai sem filho. Outra mãe sem dormir.

Lá na Bonfim estão todos explodindo. E não há recreio mais. As pernas correm. INOCENTES TAMBÉM MORREM. Lá vem bala perdida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário