Miguel observava a grande roseira a sua frente, rosas vermelhas e belas. Um pouco mais adiante o grande lago, refletia a luz do sol. E o céu estava azul, repleto de nuvens bem formadas. Um avião cruzava no espaço distante. E ele sorria, como se ouvisse uma canção, seus pés batiam no chão, acompanhavam o compasso da música silenciosa.
Algumas frutíferas árvores se deixavam levar pela força do vento, folhas caíam em terra e em água. Ele respirou fundo, havia um cheiro floral e frutas também ajudavam a impregnar o ambiente. Tudo chegava junto ao cheiros das águas que se espalhava no ar. Sentiu uma leve coceira no nariz, era o polem, esfregou-o, depois passou as mãos sobre a grama verde no chão, estava úmida pelo sereno da noite. O céu escurecido amanhecia bem a sua frente, ele olhou o relógio de pulso, eram seis horas. "É agora". Pensou. Retirou a bota, colocando-as a sua direita, depois a bermuda, retirou a camiseta formando um monte ao seu lado. Se levantou, caminhando para ali próximo. De dentro de uma sacola retirou um conjunto de terno que estava pendurado a uma arvore, a roupa possuía a cor negra, com um colete branco e gravata preta. Vestiu primeiro a calça, calçou os sapatos, completou-se em seguida, fazendo um nó na gravata, no traje que refletido na água, lhe deixava um verdadeiro pinguim.
Colocou os óculos de leitura, pegou um papel de dentro do bolso, deu uma última olhada, enquanto caminhava. De longe uma voz soava, aumentando a cada passo que dava, suas mãos começaram a suar frio. Avistou um amontoado de pessoas. Um pouco mais perto. O grupo se reunia em torno de um caixão, dentro dele uma senhora parecia adormecida. Um padre falava. Miguel não prestava atenção, mas assim que cessou, ele começou seu discurso:
- "Eu sei que se espera muito de mim, afinal que filho não teria boas palavras para falar da mãe? Sim eu sei, esta mulher foi distinta. De seus amigos e familiares, e até inimigos, sim inimigos, todos temos, mesmo aqueles de bom coração. De todos vocês, e o restante, ninguém tem nada, em momento algum, que pudesse denegrir a imagem desta senhora, minha mãe. Dentro da nossa sociedade ela foi caridosa, humana e acima de tudo honesta. Me lembro bem a primeira vez que a vi, aquele olhar meigo, que precisamente me forçou a correr até ela, em um abraço aconchegante, e eu tinha apenas cinco anos quando conheci o amor a primeira vez. Sai daquela casa inúmeras vezes segurando a sua mão, certo de que estaria alcançando a felicidade. Ela nunca foi como as outras pessoas, nem como as outras que nos levavam a passear, não me dava doces e muito menos brinquedos. Ela me enchia de palavras, coisas que carrego comigo, coisas que posso carregar por uma vida inteira. E quando ela me levou para casa, nada era tão importante quanto estar com ela. Senti seu abraço, ouvir sua voz. No nosso último encontro, ontem, ela não pode dizer muito.
Mas o olhar meigo, ainda, estava lá, e o sorriso também. E eu me perguntei inúmeras vezes, porque alguém era tão bom. Porque alguém podia ser tão bom com alguém que nunca lhe deu nada, não foi nada além de despesas e choros. Então senti vontade de chorar, eu só queria poder entender aquilo, entender tanto amor. Me aproximei um pouco mais dela. Algo tinha mudado, seus olhos estavam tristes, vazios e inanimados. Ela havia partido. Por incrível que pareça eu não fiquei triste, e de meus lábios brotou um sorriso.
Era naquele momento em que o elo estava acabado, que eu finalmente conhecia a verdade. Eu havia aprendido a melhor lição de todas. Está mulher, que agora se vai para sempre, a que a maioria de vocês velou toda esta noite, tinha amor, e isto a definia. E eu sei que sempre terei ela como um exemplo. Porque ela foi mãe, sem nunca ter tido um filho de si. Foi por escolha, como qualquer pessoa poderia ter feito, porém foi ela quem o fez. E eu ao menos uma vez, queria ter dito a ela que fui o filho mais amado do mundo, porque era assim que eu me sentia. E sabe, eu tive muito orgulho dela. E vou levá-la para sempre comigo, transmitindo seus valores para cada pessoa que eu puder atingir com seu amor. Porque aprendi com ela que o amor é algo que não se pode tocar, mas como algo intangível, é a melhor coisa para nos atingir, e eu poderia mesmo ser qualquer coisa a partir deste amor que recebi, porém não preciso. Porque o amor transforma a ponto de ser apenas amor. E é incrível. É incrível".
Terminou deixando o papel cair de suas mãos, as pessoas ao redor choravam, ele virou as costas, o caixão descia ao túmulo. Em meio as lágrimas ele sorria. Esta confusa cena representava apenas o amor, quando sente falta.